Por Pedro Walsh

Você já olhou para a Tabela Periódica, aquele mosaico colorido de todos os blocos de construção do universo, e pensou que ela estava completa? Um mapa final da matéria? É fácil ter essa sensação, como se todas as peças já tivessem sido encaixadas e o que resta é apenas admirá-la.

Mas a verdade é que, como um arquipélago em constante formação no meio de um oceano, nosso conhecimento dos elementos químicos está sempre em expansão. Mesmo hoje, em laboratórios ao redor do mundo, cientistas continuam a adicionar novos nomes e símbolos a essa estrutura fundamental. É um feito que desafia nossa intuição, transformando o que parecia finito em um horizonte contínuo de descobertas.

O que realmente impulsiona cientistas a perseguir átomos que mal existem, por frações de segundo, nos confins de um laboratório?

Como definimos um "novo" elemento químico?

Afinal, o que torna um elemento *novo*? A resposta está no núcleo, mais precisamente no número de prótons que ele abriga. Esse é o número atômico (Z), a identidade inconfundível de cada elemento. Por exemplo, o hidrogênio tem 1 próton, o hélio tem 2. E assim a tabela se organiza.

Quando falamos de novas descobertas de elementos químicos hoje, raramente estamos “descobrindo” algo que estava escondido na natureza. Em vez disso, estamos criando-os em ambientes controlados. Sintetizando. Esses são os chamados elementos superpesados, que não persistem por tempo suficiente para serem encontrados naturalmente na Terra. Para contextualizar, dos 118 elementos conhecidos, apenas 92 ocorrem naturalmente; o restante foi produzido artificialmente. O primeiro elemento sintético, o tecnécio (Z=43), foi criado em 1937, preenchendo uma lacuna na tabela periódica.

O laboratório como palco da criação: a fusão nuclear

Pense em uma colisão cósmica, mas em escala subatômica e sob controle humano. É assim que os novos elementos nascem. Dentro de instalações gigantescas, chamadas aceleradores de partículas, cientistas disparam feixes de átomos leves contra alvos de outros átomos mais pesados.

A ideia é forçar a fusão nuclear: o choque de dois núcleos que, por um instante minúsculo, se unem para formar um núcleo maior, com mais prótons – um novo elemento. Isso exige uma energia brutal, como se você tentasse colar dois pedaços de manteiga jogando-os um contra o outro em velocidades estonteantes. A probabilidade de sucesso é mínima, cerca de 0,1% em alguns experimentos, mas quando acontece, o resultado é a matéria mais nova já vista.

A tecnologia por trás dos choques atômicos

Os aceleradores de partículas são as ferramentas essenciais para essa alquimia moderna. Essas máquinas utilizam campos eletromagnéticos para propulsionar íons a velocidades e energias extraordinariamente altas. Imagine um trem de alta velocidade que circunda o planeta várias vezes em segundos, mas em escala atômica. São estruturas complexas, muitas vezes com quilômetros de extensão, que demandam um controle de engenharia de ponta e um consumo de energia considerável. Cada disparo é uma aposta altíssima em um evento raro, mas que redefine o que sabemos sobre a constituição da matéria.

A corrida para os limites da matéria: elementos superpesados

Os elementos que surgem dessas colisões são verdadeiros gigantes, daí o termo “superpesados”. Eles têm um número atômico altíssimo, muito acima do urânio (Z=92), o elemento mais pesado encontrado naturalmente em quantidade significativa. Mas essa grandeza tem um preço: eles são incrivelmente instáveis. Sua existência é fugaz, durando apenas frações de segundo antes de decaírem em elementos mais leves. Essa brevidade extrema torna sua identificação um desafio técnico monumental.

Em 2016, quatro desses colossos foram oficialmente batizados pela IUPAC: Nihonium (Nh, Z=113), Moscovium (Mc, Z=115), Tennessine (Ts, Z=117) e Oganesson (Og, Z=118), completando a sétima linha da tabela periódica. O Oganesson, por exemplo, recebeu esse nome em homenagem ao físico nuclear russo Yuri Oganessian, reconhecido por suas contribuições na produção de elementos superpesados.

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A Ilha de Estabilidade: o horizonte promissor

Porém, a busca não para. Há uma esperança que guia os físicos nucleares: a “Ilha de Estabilidade”. Pense nos núcleos atômicos como cebolas microscópicas, com prótons e nêutrons organizados em camadas. Assim como os elétrons preenchem camadas para dar estabilidade aos átomos, os pesquisadores acreditam que, se conseguirmos criar núcleos com um certo “número mágico” de prótons e nêutrons, eles podem se tornar muito mais estáveis.

Estamos falando de elementos que talvez durem minutos, dias, ou até mais – um tempo que seria revolucionário para a química nuclear e que permitiria explorar propriedades químicas dessas novas substâncias. Isso pode parecer ficção, mas a ciência já nos mostrou que as fronteiras são feitas para serem superadas. A busca por este oásis de elementos estáveis leva os cientistas a tentar sintetizar o elemento 120, um passo crucial para explorar essa ilha teórica.

Ciência em Destaque

Em julho de 2024, cientistas do Laboratório Nacional Lawrence Berkeley, nos EUA, anunciaram avanços significativos na tentativa de sintetizar o elemento 120, o átomo mais pesado já previsto. Eles obtiveram sucesso na síntese do livermório (elemento 116) usando um novo feixe de titânio, o que abre caminho para a criação do elemento 120, que ficaria na oitava linha da tabela periódica. Esse é um exemplo claro de como a tecnologia está nos aproximando da "Ilha de Estabilidade".

Fonte: CNN Brasil

O ritual da nomeação e o legado na Tabela Periódica

Depois que um novo elemento é criado e sua existência confirmada – um processo que pode levar anos e exige a repetição de experimentos por diferentes grupos –, chega a hora de dar um nome. A responsabilidade recai sobre a União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC), a guardiã da tabela periódica. Os grupos de pesquisa que realizaram a síntese têm o privilégio de propor um nome e um símbolo.

As regras da IUPAC são claras: o nome pode homenagear um local, uma região geográfica, um conceito mitológico, uma propriedade do elemento ou um cientista. Assim, temos o Nihonium (Japão), o Moscovium (Moscou), o Tennessine (Tennessee) e o Oganesson (em honra ao físico Yuri Oganessian). Cada nome é uma cápsula do tempo, contando a história de sua origem e dos esforços de quem o trouxe à existência.

Além da curiosidade: o impacto real dessas descobertas

Mas por que gastar tanto esforço e recursos para criar elementos que, muitas vezes, somem em um piscar de olhos? A resposta é simples e profunda: conhecimento. Essas descobertas nos permitem testar os limites da física nuclear, refinar nossos modelos teóricos do universo e entender melhor como a matéria se comporta em condições extremas. Não se trata apenas de preencher um espaço na tabela, mas de expandir nossa compreensão fundamental do mundo.

Embora os elementos superpesados não tenham aplicações práticas diretas hoje, o avanço tecnológico necessário para criá-los – os aceleradores de partículas, por exemplo – tem impactos em outras áreas, como medicina e energia. É a curiosidade humana empurrando a fronteira do que é possível, abrindo portas para inovações que ainda nem podemos imaginar.

A ciência está em constante movimento, e a cada dia novas fronteiras são exploradas.

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Perguntas Frequentes sobre Novos Elementos Químicos

O que é um elemento químico "novo"?

Um elemento químico "novo" é definido pelo seu número atômico, que corresponde à quantidade de prótons em seu núcleo. Quando cientistas criam um átomo com um número de prótons nunca antes observado, ele é considerado um novo elemento. A maioria dos novos elementos hoje são superpesados e criados artificialmente em laboratório.

Como são criados os novos elementos químicos em laboratório?

Novos elementos químicos são criados em laboratório, principalmente em aceleradores de partículas. Nesses equipamentos, feixes de átomos leves são disparados contra alvos de átomos mais pesados, forçando seus núcleos a se fundirem por meio de um processo de fusão nuclear. Essa colisão e união formam um novo núcleo com um número maior de prótons, caracterizando o novo elemento.

Qual a diferença entre elementos naturais e sintéticos?

Elementos naturais são aqueles encontrados na natureza, como o oxigênio e o ferro, geralmente com números atômicos mais baixos. Elementos sintéticos são produzidos artificialmente em laboratórios por meio de reações nucleares, como o tecnécio e a maioria dos elementos superpesados, que não existem de forma estável na natureza.

O que é a "Ilha de Estabilidade"?

A "Ilha de Estabilidade" é uma teoria da física nuclear que sugere a existência de elementos superpesados com combinações específicas de prótons e nêutrons que os tornariam significativamente mais estáveis do que seus vizinhos na tabela periódica. Esses elementos teoricamente teriam meias-vidas muito mais longas, durando de minutos a dias, em contraste com as frações de segundo dos elementos superpesados atualmente conhecidos.

Quem nomeia os novos elementos da Tabela Periódica?

A União Internacional de Química Pura e Aplicada (IUPAC) é a organização responsável por nomear oficialmente os novos elementos da Tabela Periódica. Após a confirmação da descoberta por uma equipe de pesquisa, ela propõe um nome e um símbolo, que são então revisados e aprovados pela IUPAC, seguindo critérios como homenagear um local, uma característica ou um cientista.

Quais foram os últimos elementos químicos adicionados à Tabela Periódica?

Os últimos quatro elementos químicos adicionados oficialmente à Tabela Periódica foram Nihonium (Nh, Z=113), Moscovium (Mc, Z=115), Tennessine (Ts, Z=117) e Oganesson (Og, Z=118). Eles foram batizados e tiveram seus nomes confirmados pela IUPAC em 2016, completando a sétima linha da tabela periódica.

Por que a descoberta de novos elementos é importante, se eles são tão instáveis?

A descoberta de novos elementos, mesmo que instáveis, é crucial para expandir nosso conhecimento da física nuclear e da química. Ela permite testar e refinar modelos teóricos sobre a estrutura da matéria e as forças que atuam no núcleo atômico. Além disso, as tecnologias desenvolvidas para criar esses elementos têm aplicações em outras áreas da ciência e da tecnologia.

Os novos elementos superpesados têm alguma aplicação prática?

Atualmente, os elementos superpesados não possuem aplicações práticas diretas devido à sua extrema instabilidade e à dificuldade de produzi-los em quantidades significativas. No entanto, a pesquisa contínua e a busca pela "Ilha de Estabilidade" podem, no futuro, levar à criação de elementos mais duradouros com propriedades únicas que poderiam ter aplicações ainda desconhecidas.